Curadoria:
Memórias de Guerra: conflitos, trajetórias e registros no Museu Casa de Benjamin Constant
Sendo um dos temas favoritos entre os entusiastas informais da História, as guerras travadas entre distintos povos aparecem como marcos de ascensão e declínio de inúmeras nações ao passar dos séculos. Dentre as mais famosas, destacam-se as batalhas travadas durante a Guerra do Peloponeso, as Cruzadas, a Guerra dos Cem Anos, as Guerras Napoleônicas, a Batalha de Adwa, as Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Contudo, estudar um evento histórico não é o mesmo que vivenciá-lo. No caso do objeto em questão, é preciso despojar-se de uma sensibilidade especial em relação ao tema.
Ao incorrer no erro de vislumbrar apenas o caráter glorioso das guerras e seus heróis, é possível que se perca de vista os horrores de tais eventos, a complexidade da cadeia de fatos que os envolvem e as pessoas anônimas e silenciadas que deles participaram. Esta curadoria digital apresenta dois marcos da história política e militar da América do Sul a partir do acervo documental do Museu Casa de Benjamin Constant: a Guerra do Paraguai (1864-1870) e a Guerra do Chaco (1932-1935).
As leitoras e leitores poderão explorar parte das memórias de ambos os conflitos através do acervo do Museu Casa de Benjamin Constant, tendo como ponto de partida o Fundo Benjamin Constant e o Fundo Pery Constant Bevilaqua, que preservam um conjunto de documentos, fotografias e correspondências.


A trajetória militar de Benjamin Constant
A história de Benjamin Constant Botelho de Magalhães está intimamente ligada ao exército, não só no tocante a sua participação na guerra do Paraguai, mas em sua trajetória de vida como um todo. Seu pai, Leopoldo Henrique Botelho de Magalhães, fora professor e militar, e transferiu-se de Portugal (seu país de origem) para o Brasil em 1822, mesmo ano em que combateu a favor da Independência. Leopoldo Henrique certamente serviu como influência na vida profissional e militar de Benjamin Constant que, na fase adulta, viria a seguir os passos de seu pai mesclando ambas esferas, a docência e o militarismo.
Aos 15 anos de idade, após concluir os estudos no Colégio do Mosteiro de São Bento, Benjamin Constant ingressou na Escola Militar onde, posteriormente, começou a ministrar aulas de monitoria, tornando-se oficialmente professor na instituição apenas em 1873, período posterior à sua breve atuação na Guerra do Paraguai. Em 1889, ano da Proclamação da República, foi nomeado lente catedrático da Escola Superior de Guerra, porém aposentou-se do magistério nesse mesmo ano.

Enquanto professor, dispunha do espaço privilegiado da docência para disseminar os ideais positivistas, dos quais se aproximou ainda mais durante seus anos de aluno da Escola Militar, e também difundiu o republicanismo entre os jovens militares, levando-os a apoiar, mais tarde, da Proclamação da República, e alçando Benjamin Constant no governo provisório militar à Pasta da Guerra, cargo equivalente ao de Ministro da Guerra, e ao título de Fundador da República.
Em 1866 Benjamin, já tenente-coronel, é convocado para a Guerra do Paraguai, chegando a Montevidéu em setembro do mesmo ano, posteriormente seguindo para Corrientes, na Argentina, deixando a esposa e uma filha pequena no Brasil. A Guerra do Paraguai, ou Guerra da Tríplice Aliança, trata-se do conflito que se estendeu de 1864 até 1870, protagonizado de um lado pelo Paraguai e de outro por Brasil, Argentina e Uruguai, com significativo apoio político e econômico da Inglaterra. Os interesses britânicos em inflamar a disputa concentravam-se, sobretudo, em uma certa autonomia do Paraguai em relação às balizas econômicas impostas pela Grã-Bretanha sobre a América Latina. O Brasil, por sua vez, estava motivado por questões territoriais e também econômicas, como a ampliação de sua influência sobre a região do Prata (ao sul da América Latina, abrangendo Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina). O conflito culminou na derrota do Paraguai para os países aliados, dizimando cerca de 75% de sua população na época.
Um fato marcante sobre o ingresso de Benjamin na guerra é a tentativa de sua esposa, junto ao Imperador D. Pedro II, de livrá-lo da convocação devido a sua condição de saúde, já fragilizada na época. Maria Joaquina recebe como resposta uma devolutiva compreensiva mas negativa de Benjamin, que via nos deveres militares uma obrigação honrosa para com a pátria. Porém, em trechos de cartas escritas por Benjamin à Maria Joaquina durante o período em que esteve entrincheirado, é notória a insistência da esposa em se juntar ao marido e as contrapartidas do mesmo aos seus apelos.

“Agradeço-te do íntimo d’alma as provas de afeição que me dás. Mas infelizmente é impossível o que me pedes. Estar comigo no acampamento? Nem é bom pensar nisso. Nestas cidades mais próximas, expostas a tudo? Não sabes o que me pediste, senão não o havias de fazer. Sabes que para mim acima de tudo está a minha honra e a da minha família. Pensas do mesmo modo mas a tua idade, a amizade que me tens, a saudade que te aflige não te deixaram refletir.”
(Benjamin Constant para Maria Joaquina, Paraguai, 1866)
Esse trecho, como outros oriundos das cartas que trocava com familiares e amigos durante o período em que Benjamin esteve na guerra, exprimem partes profundas e importantes sobre sua impressão acerca do conflito, bem como seus sentimentos em face à saudade da família, o estranhamento de terras estrangeiras e o medo da morte. Os registros de Benjamin nos apresentam às contradições do dever de servir à pátria contrastado aos aspectos do horror intrínseco ao cenário da guerra.
“Se eu tiver de morrer aqui que seja isso o mais breve possível porque a vida que aqui passo é detestável, [se tiver de] voltar, com mais forte razão, quanto mais depressa melhor porque tornar a ver-te e abraçar-te e às minhas filhinhas será para mim a maior felicidade. Cumpra-se porém a minha sorte [que espero] com a consciência tranquila, não será decerto por pedido meu que se há de alterar o que o Onipotente tiver traçado em seu [plano] universal. Cumpramos ambos os nossos deveres com paciência e resignação e se a sorte permitir que nos tornemos a encontrar que [esse seja um dia] de verdadeira felicidade para nós e nossa família.”
(Benjamin Constant para Maria Joaquina, Argentina, 1867)
As trincheiras da política: os ideais positivistas em contraste com a guerra
Os ideais positivistas também contribuíram para a visão contraditória que Benjamin tinha da guerra. A doutrina positivista, fiel à lógica de progresso da humanidade e apoiada em um discurso pacifista e anti-imperialista, serviu como uma importante dissidência à Guerra do Paraguai. Os positivistas ortodoxos, além de críticos do conflito, chegaram a advogar pela devolução dos despojos de guerra ao Paraguai, por meio da Comissão Benjamin Constant (já após o falecimento deste) . Isso estava em acordo com o preceito positivista de harmonia e fraternidade entre as nações como caminho para o progresso.
Outro ponto foi a presença de negros escravizados na Guerra do Paraguai. O recrutamento compulsório atingia, primordialmente, a porcentagem marginalizada da população masculina do país, tornando o processo profundamente desigual. Ademais, uma das principais estratégias por parte das elites era a doação de escravizados ao Exército. O Império, por sua vez, incentivava o alistamento de escravizados através de moedas de troca como a alforria e a compra de escravizados para envio à guerra. Esses fatores também chocavam com o positivismo, pela sua forte ligação com o abolicionismo.
Benjamin, mesmo sendo militar, mostrava-se crítico da Guerra do Paraguai. Para ele, a guerra demorava para chegar a um desfecho, as estratégias em campo eram muito frágeis, a desorganização militar era notória e os níveis de desumanidade alarmantes. Assim, a guerra serviu também à formação política e intelectual de Benjamin, uma vez que a mesma se tornara um espaço de observação das fragilidades do Império, elemento que nos leva a compreender sua posterior atuação republicana.


“López mandou retirar as forças que opunha às nossas avançadas substituindo-as por outras. O tiroteio continuou então com mais força ainda. Não pode fazer ideia quantas famílias desgraçadas tem produzido esta demora em nossas operações decisivas. Conta-se como milagre o dia que se não tem a comentar alguma perda. Regulam termo médio 200 a 250 homens por mês mortos somente na esquerda de nossas linhas avançadas. Quantos moços de esperanças tenho visto morrer. Quantos oficiais e soldados temos perdido.”
(Benjamin Constant, 1866)
“Estou […] que aborrecido e desgostoso com a excessiva demora de nossas operações. Não sei quando acabará esta porcaria. Às vezes penso que não terei a felicidade de tornar a ver-te e abraçar-te; parece que esta guerra não tem fim. Não há uma direção inteligente e aqui vai esterilmente morrendo este pobre Exército que já tantos sacrifícios tem feito. Devia dizer que tudo vai muito bem e que breve estará tudo […] se te quisesse tranquilizar enganando-te; mas não te direi senão a verdade. Pode ser que isto acabe […] mas o que é de esperar-se pela apatia em que estamos é que a guerra se prolongará ainda muito.”
(Benjamin Constant para Maria Joaquina, Argentina, 1867)
Fotografias de guerra como guardiãs da memória
Durante a segunda metade do século XIX, o formato fotográfico carte de visite circulava amplamente entre as pessoas ilustres da época. Essas pequenas fotografias funcionavam como cartões de visita, trocados entre familiares, amigos e conhecidos. Com o início da Guerra do Paraguai, passaram também a assumir um importante papel afetivo, sendo utilizadas como lembrança entre aqueles que partiam para o conflito e os que permaneciam, diante da constante possibilidade da morte.
Esse formato está presente no acervo do Museu Casa de Benjamin Constant, no Fundo Benjamin Constant, reunindo tanto os cartes de visite produzidos antes de sua partida para o front quanto aqueles enviados por familiares e amigos ao longo do conflito. Entre eles, destaca-se a fotografia de corpo inteiro de Benjamin Constant, por volta dos 30 anos, trajando roupas civis, além do retrato de sua esposa e filha. Também foram realizados registros no Imperial Instituto dos Meninos Cegos, atual Instituto Benjamin Constant, como recordação de alunos e colegas por ocasião de sua partida para a guerra.




Algum tempo depois, Maria Joaquina envia outro carte de visite em que aparece ao lado das filhas, acompanhado da seguinte dedicatória:
“Meu adorado Benjamin, tuas inocentes e amadas filhinhas, tua muito saudosa esposa vão visitar-te; abraçando-te rogão-te que voltes quanto antes ao seio da tua família, do qual fazes a maior e única felicidade. Tua esposa e verdadeira amiga que muito te ama, Maria Joaquina da Costa Botelho de Magalhães”.


Há também ocarte de visite realizado já em território de guerra por seu irmão, Marciano Augusto Botelho de Magalhães, que partiu para o conflito aos 18 anos e permaneceu até o fim da Guerra do Paraguai, em 1870. O retrato, enviado das frentes de batalha a seu irmão mais velho, Benjamin Constant, é datado de novembro de 1869, e permite perceber alguns vestígios da experiência da guerra presentes na própria imagem.
Essas fotografias guardam memórias de despedidas, saudades e permanências, constituindo testemunhos sensíveis de um período marcado pela incerteza e pela separação. No contexto da Guerra do Paraguai, as fotografias presentes no Fundo Benjamin Constant evidenciam a tentativa de manter vínculos afetivos mesmo à distância, preservando a presença daqueles que estavam ausentes. Já as fotografias do século XX, relacionadas à Guerra do Chaco e pertencentes ao Fundo Pery Constant Beviláqua, produzidas em outro contexto histórico e tecnológico, apresentam de forma mais direta a vivência do front, a devastação da guerra, as estratégias de sobrevivência e as diferenças entre as classes sociais, gênero e raça em meio ao conflito.


Pery Constant Bevilaqua e sua atuação na Guerra do Chaco
Pery Constant Bevilaqua era neto de Benjamin Constant, filho do marechal José Bevilaqua com a terceira filha de Benjamin, Alcida Constant Bevilaqua. Nascido em 1899, Pery herdou do avô não só a tradição militar como também o apreço pelo positivismo e o constitucionalismo. Sendo um dos membros mais longevos de sua família, viveu por quase 100 anos, falecendo em 1990, praticamente atravessando o século XX. Iniciou sua carreira militar em 1917, na Escola Militar do Realengo. Dois anos depois, com apenas 19 anos, tornou-se aspirante a Oficial da Arma de Artilharia do Exército Brasileiro. Realizou posteriormente o Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais, em 1925, chegando no ano seguinte à formação superior de comando militar na Escola de Estado-Maior do Exército.
Em 1934, Pery Bevilaqua foi enviado ao Paraguai como adido militar, uma espécie de oficial das Forças Armadas designado à missões diplomáticas no exterior junto à embaixada brasileira na Guerra do Chaco. Este segundo conflito ocorreu entre Paraguai e Bolívia, de 1932 à 1935 e, assim como a Guerra do Paraguai, envolvia disputas territoriais. A região do Chaco era considerada uma área estratégica para os dois países e estimava-se que fosse rica em petróleo.
Toda a guerra foi atravessada por questões diplomáticas, mesmo antes do desfecho militar, dentre as tentativas de mediação política destaca-se a criação da Comissão Militar Neutra. Esse aparelho serviu como uma instância de neutralidade militar e diplomática, envolvendo representantes de países como Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Brasil e Estados Unidos. Em 1935, Pery Bevilaqua, já no posto de major, integrou a Comissão após sua participação no Paraguai no ano anterior. A participação de Pery, ainda que no campo diplomático, foi relevante por se tratar do representante dos interesses militares brasileiros na tentativa de pacificação do conflito.






Fotografias de guerra como construção da memória
As fotografias da Guerra do Chaco, hoje preservadas no Museu Casa de Benjamin Constant, chegaram ao acervo por meio de Pery Constant Bevilaqua e de sua participação na Comissão Militar Neutra. Em seu retorno ao Brasil, em 1938, trouxe as imagens realizadas pelo Ministério da Defesa do Paraguai produzidas no contexto do conflito.
Grande parte delas foi realizada pelo fotógrafo austríaco Adolfo Maria Friedrich, emigrado para a América do Sul após a Primeira Guerra Mundial e fotógrafo oficial do exército paraguaio durante a guerra. Suas fotografias não registram apenas a violência dos combates, mas constroem a imagem de um território em processo de ocupação, marcado pela ideia de ordem promovida pelos militares e pelas discrepâncias entre as comunidades que ocupavam aquela região, com suas tradições e modos de vida, e os aparatos militares. [Ims: 18 vs. 19]. As fotografias apresentavam o Chaco como uma região vazia e pronta para ser ocupada, como em algumas imagens que mostram os caminhões militares avançando por área dominada pela vegetação [Im: 20] ou a chegada de prisioneiros em territórios considerados “desocupados” [Im: 21].
Mesmo em contexto de guerra, o olhar do fotógrafo também registra momentos de descanso e convivência entre os soldados [Ims: 22; 23]. Essas cenas do cotidiano projetam uma visualidade marcada pela aparente tranquilidade e disciplina militar, afastando-se de representações mais explícitas de violência e combate físico. Ainda assim, há a presença de um elemento silencioso constante em todo conflito: a morte. Diferentemente da relação estabelecida entre a fotografia e a morte durante a Guerra do Paraguai, no século XIX, quando a imagem atuava como guardiã da memória de entes queridos, nas fotografias da Guerra do Chaco, no século XX, ela se apresenta de forma mais silenciosa e incorporada à paisagem, por meio de registros de cemitérios improvisados identificados por cruzes de madeira e também de cadáveres pelo território.




Dessa maneira, as fotografias da Guerra do Chaco permitem compreender como a fotografia de guerra não atua apenas como registro documental, mas também como ferramenta de construção de memória, propaganda e poder. Ao selecionar aquilo que queria ser visto, como a organização militar, avanço territorial e poderio do Estado, ocultam-se outras experiências de conflito, como a violência cotidiana e a exploração das populações indígenas da região. Assim, as imagens produzidas pelo fotógrafo do exército contribuíram nas formas de lembrar e interpretar a guerra ao longo da construção da memória oficial do conflito.




Mulheres, Guerra e Cuidado
A participação das mulheres nos conflitos armados esteve historicamente associada às atividades de cuidado e assistência, embora tenham sido muitas vezes invisibilizadas pelas narrativas oficiais. Na América do Sul, a atuação feminina na área da saúde ganhou maior destaque durante a Guerra do Paraguai, com as mulheres integrando espaços de assistência aos soldados feridos. Entre elas, destacou-se a figura de Anna Justina Ferreira Nery, considerada pioneira na enfermagem de guerra no Brasil. Ela se voluntariou-se para atuar nos hospitais militares a fim de acompanhar seus filhos convocados para o conflito. Sua trajetória foi marcada pelo cuidado humanitário, pela dedicação aos feridos e pela organização de enfermarias, tornando-se um símbolo da enfermagem brasileira. [Im: 30]
No acervo do Museu Casa de Benjamin Constant encontra-se algumas fotografias de Anna Nery, uma deles está acompanhada da seguinte inscrição realizada por Aracy Botelho de Magalhães, filha mais nova de Benjamin Constant, que evidencia a admiração da família pela enfermeira: “Esta photographia achava-se no album de retratos da família, e era guardada como preciosa recordação de Papae. Aracy Botelho de Magalhães. 20-1-922.”. O registro demonstra não apenas a relevância simbólica de Anna Nery no período, como a permanência de sua memória nos acervos históricos ligados à história brasileira.
Décadas mais tarde, durante a Guerra do Chaco, a presença feminina na área da saúde permaneceu essencial. Enfermeiras vinculadas à Cruz Vermelha e outras voluntárias atuaram no atendimento aos combatentes e na organização de hospitais de campanha em condições precárias no Chaco. Apesar da ampliação da participação feminina nos espaços de assistência e cuidado durante os conflitos, muitas delas continuam permanecendo à margem da memória oficial da guerra.
O legado de Anna Nery ultrapassou o contexto da Guerra do Paraguai e se tornou referência não apenas no surgimento da enfermagem profissional no Brasil, mas também na ampliação da participação feminina na esfera pública.




O papel do museu na preservação das memórias de guerra
Do século XVI a princípios do século XIX, os arquivos cumpriam a função de “arsenal de autoridade”, armazenando em si fragmentos da memória das elites e servindo como fonte de legitimação de poder. Com a virada promovida pela Escola Metódica francesa, entre os séculos XIX e XX, as fontes documentais passam a ser alvo de um olhar analítico crítico em relação à sua origem, contexto de produção, quem a produz, armazena e a mensagem que se pretende passar. A historiografia também atravessou processos de transformação na forma com que sistematizava e expunha sua produção.
O tempo, a memória e os registros históricos ainda se encontram enredados em meio a disputas de poder e narrativa. Ao analisar a forma com que as guerras foram historicamente tratadas, não só a partir da América do Sul, mas em escala mundial, é possível observar fatores recorrentes como a ascensão de grandes heróis da pátria, as ferramentas, estratégias e tecnologia de determinadas nações em detrimento de outras, os símbolos nacionais pelos quais se entre em conflito. Porém, todos esses pontos não podem caminhar apartados de uma leitura acrítica dos fatos históricos.
Os registros presentes no acervo do Museu Casa de Benjamin Constant possibilitam promover uma ruptura com uma noção dicotômica e gloriosa sobre duas das maiores campanhas militares da história da América Latina, enfatizando o papel indispensável dos museus e seu compromisso com a memória de um país. As passagens de correspondências de Benjamin Constant, as fotografias da Guerra do Paraguai e do Chaco, dão à luz tanto as contradições enfrentadas em escala individual, quanto aquelas vividas coletivamente em momentos tão sensíveis quanto o enfrentamento de um conflito bélico. Buscamos evidenciar não só os membros da família de Benjamin, como também agentes historicamente invisibilizados pelas grandes narrativas promovidas pela historiografia tradicional, elencando as muitas e complexas faces do fenômeno que buscamos abordar.





Referências Bibliográficas
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Referências Fotográficas
Fundo Benjamin Constant, Museu Casa de Benjamin Constant-Ibram/MinC.
Fundo Pery Constant Beviláqua, Museu Casa de Benjamin Constant-Ibram/MinC.
Créditos
Assinam esta curadoria: Cayssa Oliveira e Paula de Moraes Rodrigues
Supervisão: Marcos de Brum Lopes
