O Museu
Histórico
Construída na segunda metade do século XIX, por Antônio Moreira dos Santos Costa, seu primeiro
proprietário, a casa foi alugada por Benjamin Constant Botelho de Magalhães em 1890, meses após a
Proclamação da República (1889), quando deixou a direção do Imperial Instituto dos Meninos Cegos para participar do Governo Provisório como Ministro da Guerra e, logo depois, como Ministro da Instrução Pública, Correios e Telégrafos.
O museu não é somente uma casa, e sim uma chácara típica do século XIX, com generosa área verde, um caramanchão e duas edificações principais: a Casa Histórica onde morou e faleceu Benjamin Constant Botelho de Magalhães e a Casa da Bernardina, uma das filhas do patrono, na qual atualmente estão instaladas as áreas administrativa, educativa e técnica do museu, além abrigar o acervo histórico e bibliográfico.

Podemos dizer que a chácara teve cinco fases distintas ao longo da sua trajetória: a primeira vai da década de 1860, quando foi construída, até 1890, quando Benjamin Constant a alugou. A segunda fase, bem curta, corresponde ao tempo em que Benjamin nela residiu, entre 1890 e sua morte, em 1891. A terceira fase vai de 1891 até 1958, período no qual a propriedade permaneceu em usufruto da família de Benjamin Constant. A quarta fase corresponde aos esforços de algumas pessoas e instituições para transformar a casa em museu, entre 1958 e 1982. A última fase, a partir de 1982, marca a abertura da chácara ao público, já como museu casa.
Um pouco da história do bairro de Santa Teresa
No século XVII, a região onde a chácara está situada se chamava morro de Nossa Senhora do Desterro. Depois, passou a se chamar Santa Teresa, em função do convento com o mesmo nome, construído em 1750 a mando do Governador Gomes Freire de Andrade. Santa Teresa era um bairro de chácaras das classes abastadas do Rio de Janeiro, residencial, porém rural. Nessas chácaras, criavam-se animais e plantavam-se víveres. Não raro, Santa Teresa era procurada por aqueles que buscavam um lugar mais saudável para morar, motivo que levou o próprio Benjamin Constant a residir no bairro.
Nos séculos XVII e XVIII, os acessos eram poucos. Apenas no século XIX, quando algumas propriedades foram desmembradas, é que se abriram ruas e vias em Santa Teresa. Nesse tempo, o transporte era feito através de liteiras, em ombros de pessoas escravizadas, ou veículos de tração animal. No II Reinado, em 1856, o Governo Imperial autorizou a instalação de bondes de tração animal, que circulavam sobre trilhos de ferro. No entanto, esse transporte só começa a funcionar em 1859, sendo sucedido, no final do século XIX, pelos bondes elétricos.
A casa
A casa da chácara onde viveu Benjamin foi construída por volta de 1860, em estilo neoclássico, com jardim e belvedere, caramanchão e porão. O primeiro proprietário chamava-se Antônio Moreira dos Santos Costa. As casas de chácara situavam-se em torno do núcleo urbano e contavam, muitas vezes, com senzala, jardim, horta, pomar, chiqueiro, estrebaria, cocheira e abastecimento próprio de
água. Eram mais confortáveis que os sobrados urbanos e, por isso, preferidas pelas classes mais
abastadas.

A arquitetura da casa apresenta portas e janelas verticais distribuídas com estrita regularidade binária e com repetição, sendo marcante o uso de formas geométricas. A fachada é frontal, diretamente aberta sobre a calçada, exceto nas duas entradas, que apresentam pátio de acesso com gradil de ferro. No interior, apresenta assoalho de madeira e mobiliário em madeira e ferro. Alguns quartos apresentam comunicação entre si, além das portas principais para o corredor, evidenciando os costumes da época em relação à privacidade, à intimidade, à individualidade e à vigilância.

A configuração da casa, tal como hoje se apresenta, é fruto do projeto original e das modificações, reformas e intervenções realizadas tanto pela família como pelos órgãos de preservação do patrimônio histórico e museal, notadamente o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
Benjamin Constant e a chácara de Santa Teresa
Como diretor do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, Benjamin Constant, além de lecionar
também residia na escola. Após a Proclamação da República e sua participação no Governo
Provisório como Ministro da Guerra e, posteriormente, Ministro da Instrução Pública,
Correios e telégrafos; mudou-se para Santa Teresa. Provavelmente, procurou o bairro pelos
seus benefícios à saúde: ar puro, clima mais ameno e bastante verde. O professor sofria de
complicações hepáticas por conta da malária que contraíra na Guerra do Paraguai.
Segundo o diário de sua filha Bernardina, a família residiu primeiramente em outra casa do
bairro, mudando-se depois, para a chácara da rua monte alegre. Esta foi alugada por Benjamin
que, sem mesmo observar cuidadosamente a casa, afirmou: “fico com ela”. A localização da
propriedade, com uma vista aberta à baía de Guanabara, cativou-o desde o princípio.
Ampla e arejada, a casa oferecia o que Benjamin procurava: espaço para a família, tranquilidade e
um ambiente salutar. Organizou seu escritório de estudo e trabalho num dos cômodos logo na entrada da residência, com biblioteca e mesa-gabinete. A sala de visitas era ideal para as reuniões que faziam parte do seu cotidiano de ministro. Entretanto, Benjamin viveria pouco no local. Seus problemas de saúde agravavam-se e, em janeiro de 1891, falecia Benjamin Constant em sua residência, mesmo local onde foi velado.
A família e o usufruto da casa
Com o falecimento de Benjamin Constant, a casa passou a usufruto da viúva e dos filhos do casal, que não tinham condições financeiras de mantê-la. Assim, o governo republicano adquiriu a chácara, pagando 100 contos de réis ao proprietário Antônio Moreira dos Santos Costa e a transformou em próprio nacional. A transação foi feita em cumprimento do artigo 8º das disposições transitórias da Constituição de 1891, a primeira da era republicana, mas necessitou ainda do decreto legislativo nº6 de 29 de agosto de 1891, que autorizou a compra.

Além do objetivo prático de garantir o bem-estar da família enlutada, a compra da casa de Benjamin
Constant também fez parte da entronização do Fundador da República no rol de heróis nacionais. Sua
morte e elevação a figura de apelo público marcou toda a trajetória da casa a partir de então como, por exemplo, na época de seu tombamento.
Ser um herói não estava entre os planos de Benjamin Constant. Mais de uma vez sinalizou que recusaria ser o líder máximo do governo, deixando claro que não disputaria as eleições para Presidente da República, caso fosse indicado para a corrida eleitoral. Esse é um dos indícios de que Benjamin nunca desejou estar em evidência.
Benjamin Constant tinha um objetivo pessoal que levou consigo durante seus dois últimos anos de vida: reformar o ensino no Brasil. Certa vez afirmou que “o engrandecimento da República repousa
essencialmente sobre a educação”. Muito se esforçou para isso, recusou trabalhos que poderiam lhe trazer prestígio e antes de morrer conseguiu submeter o projeto de reforma do ensino público brasileiro. Porém, a vontade individual é, não raro, sobrepujada pelo triunfo da vontade coletiva e, nesse caso, política.
O título de Fundador da República, outorgado a Benjamin pelo Congresso Nacional dois dias após seu
falecimento e também registrado nas Disposições Transitórias da Constituição de 1891, a primeira da era republicana, coroou o que o historiador Renato Lemos chamou de entronização de Benjamin no panteão de heróis nacionais. Além do título, a Carta previu o destino da última residência do homenageado:
“O Governo federal adquirirá para a Nação a casa em que faleceu o Doutor Benjamin Constant Botelho de Magalhães e nela mandará colocar uma lápide em homenagem à memória do grande patriota – o fundador da República” (Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, Disposições Transitórias, Artigo 8º, 24 de fevereiro de 1891).
O trecho constitucional é precedido pela oferta do governo de uma pensão vitalícia a D. Pedro II que, “a contar de 15 de novembro de 1889, garanta-lhe, por todo o tempo de sua vida, subsistência decente”. Ao mesmo tempo em que lembra o último imperador, faz surgir a figura do fundador do regime que pôs fim ao Império.
Quando lembramos que a residência de Deodoro também recebeu uma placa memorativa do seu
ato proclamador, podemos imaginar que a elite política produzia os sítios históricos da
República, vinculando-os às figuras públicas do novo regime. No caso de Benjamin Constant,
nada melhor que a morte como convite à uma entronização que ultrapassou a demarcação
física de sua residência como um lugar histórico, gerando a primeira iniciativa museológica da
República brasileira. Com a permanência da família morando na chácara, a residência ainda esperaria algumas décadas até que fosse transformada em museu.
A casa como patrimônio histórico nacional
Em 1958 o General Pery Constant Beviláqua, neto de Benjamin Constant, solicitou ao SPHAN
(Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) uma intervenção no imóvel, que se
encontrava em ruínas. Araci Constant, filha mais nova de Benjamin, morou na casa até aquele
ano. Prontamente o SPHAN começou os estudos e tombou a casa como patrimônio histórico
nacional, com um parecer favorável de Carlos Drummond de Andrade.
Vale registrar que Drummond de Andrade menciona, no seu parecer, o projeto de Demétrio
Ribeiro que propunha a conversão da casa em museu. Além disso, cita o artigo 8º das Disposições Transitórias da Constituição de 1891. Para ele, seria desnecessária a pesquisa e justificativa para o tombamento, já que a historicidade da casa foi estabelecida pela Carta Magna, restando ao SPHAN inscrever o imóvel no Livro de Tombo e produzir documentação fotográfica do imóvel para compor o arquivo da Seção Histórica.
Sugestivamente, a morte de Benjamin – sua passagem da dimensão física para a mítica – marca o imóvel: o objeto do tombamento é chamado de “casa onde faleceu Benjamin Constant” (grifo atual), como se a passagem do morador de vivente a mito resultasse também na passagem da casa de residência a patrimônio.
Ainda em 1958, Rodrigo Mello Franco de Andrade convoca os familiares descendentes de Benjamin Constant para que compareçam ao DPHAN para tratar da questão de “objetos, livros, papéis” existentes na casa. E também solicita ao diretor do Museu Nacional de Belas Artes que ponha à disposição do DPHAN dois funcionários, uma vez que
“esta repartição [tem] necessidade de proceder o arrolamento dos objetos doados ao Governo Federal pelos descendentes de Benjamin Constant com o objetivo de ser instalado um museu dêsse procer da República em sua casa”. (Ofício 773, de 4 de junho de 1958. Dossiês Museu Casa de Benjamin Constant/Pasta OBRAS CX 0553 P2272.1 – destaque nosso)
Concomitantemente, o órgão responsável pelo patrimônio histórico da União procedeu com as obras de restauro da casa e, em 1960, Rodrigo Mello Franco de Andrade escreve ao Ministro da Educação e Cultura solicitando a indicação da “naturalista letra N” Heloisa Alberto Torres para liderar a organização do museu. A notável cientísta, para Andrade, seria o nome ideal para atender
“à necessidade de serem tomadas numerosas providências para a organização de um museu histórico na casa em que residiu e morreu Benjamin Constant Botelho de Magalhães” (Ofício 433, de 21 de março de 1960, Arquivo Central do Iphan/Dossiês Museu Casa de Benjamin Constant/Pasta OBRAS CX 0553 P2273)

Pelo mesmo ofício, Heloisa Alberto Torres é indicada para planejar a organização do museu. A renomada naturalista é nomeada através da Portaria MEC de 11 de abril de 1960, publicada no Diário Ofical de 13 de abril de 1960 (Arquivo Central do Iphan/Dossiês Museu Casa de Benjamin Constant/Pasta OBRAS CX 0553 P2273);
Na década de 1970, o tabralho de organização do museu é atribuído à museóloga Hercília Canosa Vianna, que veio a ser a primeira diretora do museu depois da sua abertura ao público em 18 de outubro de 1982. Para que isso ocorresse, Hercília Vianna realizou intenso trabalho de pesquisa e teve Benjamin Constant Fraenkel, neto de Benjamin Constant, como o seu grande aliado e colaborador. Fraenkel, que frequantara a chácara na virada do século 20, descreveu em cartas e desenhos os cômodos da casa e seus jardins, colocando sua memória ao dispor dos esforços de musealização da residência de seus avós.

Um museu público
O Museu Casa de Benjamin Constant tem como missão preservar e divulgar a vida e a obra de seu
patrono, estimulando o pensamento crítico sobre a história do Império e da República, nas suas
manifestações políticas, sociais e culturais, por meio de seu acervo, de ações educativas, de ações
de comunicação, da produção de conhecimento e do uso sustentável do seu Parque, que integra a
Área de Preservação Ambiental (APA) de Santa Teresa.
Ser referência como museu casa, lugar de memória da criação da República, integrado à
comunidade de Santa Teresa é a nossa visão. Com ela, desejamos fomentar valores como a universalização do acesso e uso do museu público; a produção de conhecimento; a preservação do patrimônio público; a sustentabilidade ambiental; a ética republicana; a defesa do Estado Laico e Democrático de Direito; e a cidadania.
O MCBC atua na interface entre o museu casa e o museu de história. As temáticas centrais da
instituição são: história política do Brasil; história da República; história do Rio de Janeiro;
Positivismo; vivências e cotidianos familiares do século XIX; história da ciência; história da
educação. Algumas temáticas se constituem a partir de tipologias de acervos, como é o caso da
história da fotografia, que se justifica pelo rico acervo fotográfico preservado pelo museu. Os
temas são pesquisados e veiculados por meio exposições, atividades educativas, pesquisa e
divulgação científica, curadorias digitais e parcerias interinstitucionais. Por suas características arquitetônicas e ambientais, é um aparelho cultural e de lazer cotidiano da comunidade na qual se insere, oferecendo apoio e participando das iniciativas dos agentes do bairro.
Nossa missão segue as diretrizes do Estatuto de Museus, instituído pela Lei nº 11.904, de 14 de
janeiro de 2009 e regulamentado pelo Decreto nº 8.124, de 17 de outubro de 2013, que caracteriza
os museus como instituições “a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento”. Como museu casa
e museu de história, o MCBC inspira-se, também, no texto do Plano Nacional Setorial de Museus
(2010-2020), que define os museus de história “como locais de reflexão crítica sobre a história
representada e a ser representada, garantindo a coerência da missão institucional”.
Acredita-se que a presente missão contribua para promover a cidadania e a valorização da
diversidade, à medida que, através da manutenção da memória de uma época de profundas
transformações em nosso país, seja pela constatação da importância social, política e cultural de um
personagem da nossa História, seja pelo contato com os modos de vida de uma época remota,
permite-se ao indivíduo relacionar sua individualidade com o coletivo, construindo uma reflexão
crítica de si, de sua sociedade e das demais, compreendendo e respeitando semelhanças e diferenças entre ele e seu entorno.
Ademais, ao expor ao público um acervo de grande importância para a História do Brasil, o museu
está impulsionando a valorização e a preservação do patrimônio cultural. A promoção de atividades
educativas, ecológicas, culturais e de lazer, alicerçadas no respeito à pluralidade cultural e na
participação comunitária, desempenharia uma importante função social: a de universalizar o acesso
da sociedade ao patrimônio material, imaterial e ambiental, em consonância com o Mapa Estratégico
do Instituto Brasileiro de Museus.
